AssuntosNavegação |
A Casa InteiraNa agora simplória soleira da varanda externa do Casarão, Agda olhava para uma casa grande, séria, introvertida e marrom, com olhos pesados e baixos. Olhava com um desprezo, misturado com dor, arrependimento e culpa característicos, incomuns. Todo aquele lugar agora era só pra ela. E para que serviria uma casa de 27 quartos para uma pessoa que mal conseguia dormir? A casa inteira era revestida com papéis de parede de um roxo escuro, quase vinho, com vinhedos e listras do rodapé ao teto. Algo com muita sombra e, deveras, muita pompa, para tais tempos que Agda ainda poderia lembrar. E lembrava com tal êxito, com tal detalhamento. Lembrava-se do cheiro do vinho servido todas as Sextas-Feiras por seus pais, absolvidos de uma exibição de magnificência tomada de solenidade. Ainda poderia lembrar-se do odor fúnebre dos casacos que eram guardados naquele armário debaixo da gigante escada voltada para os lados leste e oeste daquele que já abrigara uma das maiores e mais importantes famílias espanholas de toda a cidade. Era verdade, o cheiro era o que ela mais prezara para distinguir a pessoa que tanto amara da pessoa que tanto odiara. Hoje já não pensa com tanto louvor o fato de poder ter uma memória olfativa tão marcante. Tudo o que havia vivido sentia agora que não fora do exato jeito que gostaria. Agora porém simplesmente não havia mais como voltar. Por mayra.elespp em Maio 25 2007 - 10:38 | medo | blog do(a) mayra.elespp | entre com seu usuário ou registre-se para enviar comentários
|