A Casa Inteira

Na agora simplória soleira da varanda externa do Casarão, Agda olhava para uma casa grande, séria, introvertida e marrom, com olhos pesados e baixos. Olhava com um desprezo, misturado com dor, arrependimento e culpa característicos, incomuns. Todo aquele lugar agora era só pra ela. E para que serviria uma casa de 27 quartos para uma pessoa que mal conseguia dormir? A casa inteira era revestida com papéis de parede de um roxo escuro, quase vinho, com vinhedos e listras do rodapé ao teto. Algo com muita sombra e, deveras, muita pompa, para tais tempos que Agda ainda poderia lembrar. E lembrava com tal êxito, com tal detalhamento. Lembrava-se do cheiro do vinho servido todas as Sextas-Feiras por seus pais, absolvidos de uma exibição de magnificência tomada de solenidade. Ainda poderia lembrar-se do odor fúnebre dos casacos que eram guardados naquele armário debaixo da gigante escada voltada para os lados leste e oeste daquele que já abrigara uma das maiores e mais importantes famílias espanholas de toda a cidade. Era verdade, o cheiro era o que ela mais prezara para distinguir a pessoa que tanto amara da pessoa que tanto odiara. Hoje já não pensa com tanto louvor o fato de poder ter uma memória olfativa tão marcante. Tudo o que havia vivido sentia agora que não fora do exato jeito que gostaria. Agora porém simplesmente não havia mais como voltar.

...No entanto,...

... No entanto, Agda não consegue suportar mais o seu passado e quer proporcionar a si mesma maior felicidade e liberdade, apesar de ser uma pessoa sozinha na vida. Logo, meses depois ela consegue se desfazer da casa e parte para uma viagem planejada.